terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Amigas, um chalé, um quintal e Gil Vicente - Friends, a cottage, a garden and Gil Vicente


Ontem à tarde saí com duas amigas. Fomos até o chalé que uma delas está construindo nos Caixetas, um bairro de zona rural, mas muito pertinho da cidade. Se no futuro a Stella quiser morar lá ao invés de utilizar o chalé somente aos finais de semana, será totalmente viável – o ar do lugar é outro pela presença do riacho, do bambual, do verde todo que cerca o chalé – mas a cidade está pertinho. A Cláudia é a outra amiga; mora em Poços de Caldas. Um encontro desse trio é coisa rara, mas sempre é especial. Na faculdade montamos um grupo de teatro e nos apresentamos com sucesso numa noite cultural. A peça? Uma adaptação de “Todo-o-Mundo e Ninguém”, de Gil Vicente. A Cláudia fazia o papel de “Belzebu”, um demônio mandado por Lúcifer (o principal dos demônios) à terra a fim de espreitar os humanos; Stella fazia o “Dinato”, um demoniozinho escrivão, todo atrapalhado. As exigências de “Belzebu” e as lerdezas de “Dinato” foram responsáveis pela maior parte das gargalhadas durante a apresentação. Eu fazia o papel de um homem rico, materialista e desonesto, chamado “Todo-o-Mundo”, outra colega fazia “Ninguém”, um homem humilde e virtuoso.

Um fragmento: 

Ninguém:          Que andas tu aí buscando?
Todo-o-Mundo:Mil cousas ando a buscar:
                           delas não posso achar,
                           porém ando porfiando
                           por quão bom é porfiar.
Ninguém:          Como hás nome, cavaleiro?
Todo-o-Mundo:Eu hei nome Todo-o-Mundo
                            e meu tempo todo inteiro
                            sempre é buscar dinheiro
                            e sempre nisto me fundo.
Ninguém:           Eu hei nome Ninguém,
                            e busco a consciência.
Belzebu:             Esta é boa experiência:
                            Dinato, escreve isto bem.
Dinato:               Que escreverei, companheiro?
Belzebu:             Que ninguém busca consciência.
                            e todo o mundo dinheiro.
                            .................................................

Todo-o-Mundo: Folgo muito d'enganar,
                            e mentir nasceu comigo.
Ninguém:           Eu sempre verdade digo
                            sem nunca me desviar.
Belzebu:             Ora escreve lá, compadre,
                            não sejas tu preguiçoso.
Dinato:               Quê?
Belzebu:             Que todo o mundo é mentiroso,
                            E ninguém diz a verdade.
                             .................................................

(Gil Vicente, “Todo-o-Mundo e Ninguém”, parte de O auto da Lusitânia)



Embora Belzebu se refira aquilo que na peça as personagens efetivamente são e fazem, elas são alegorias daquilo que na realidade a maioria (todo mundo) é (ou faz) e do que, infelizmente, quase ninguém é (ou faz).  Na fala de “Belzebu”, portanto, é que se processa toda a sátira de Gil Vicente à sociedade de sua época (final da Idade Média) e a de qualquer tempo.
Pelo pequeno trecho transcrito acima dá para imaginar o sucesso que fizemos na apresentação adaptada da peça. Como disse, não é sempre que o trio – Cláudia, Stella e Jussara – se encontra, mas quando acontece é sempre especial. Na volta para casa a Cláudia falava de umas bolachinhas de Natal que comera em minha casa no dia 24; Stella ficou com vontade. Convidei-as para um café. Pelo celular pedi à minha mãe que fizesse o café (não gosto do meu e o dela é delicioso). Viemos para casa e tomamos café com as bolachinhas de chocolate e canela. Depois sentamos no meu quintal e as duas elogiaram a cortininha que tenho sob o tanque. Lembrei-me que há pouco tempo a Vivianne Pontes do “D-coração” postou umas cortininhas lindas (não consegui achar o link desse post, mas o do blog é este aqui) e decidi que também podia mostrar a minha:

Para variar, pintura da minha mãe





Mais próximo... para os detalhes



 
Em cima do tanque, quadrinho bordado pela minha filha:


 
 
(Eu não sou mesmo muito paparicada por mãe e filha?)


Como há um chalé em construção, minhas amigas gostaram também de umas cabaças e uns pássaros de madeira... mas isso é matéria para um outro dia. O de ontem já foi muito especial.

Abraço!


14 comentários:

  1. Oi Jussara!

    Seja super bem vinda no meu cafofo! Amo Minas! Morei em BH nos anos 80... Tenho muitas boas lembranças...

    Lendo o texto da peça, fiquei a pensar que sentimentos bons ou maus, são atemporais e eternos! Que nem a boa amizade de vcs...

    Pelo jeito o DNA de artista está em toda família, os dois trabalhos muitos lúdicos e doce! Amei!

    Gostei do seu espaço, já estou linkando...

    Um ano novo cheio de pequenas e grandes realizações p/ vc e família!

    Beijossssssss

    ResponderExcluir
  2. Oi, Jussara...

    Vc chamou e eu vim!
    Minas é tudo de bom!
    Já coloquei meu email aqui...

    Beijossssss

    Clica no meu nome e conheça o meu tbm... é muito bem vinda!

    ResponderExcluir
  3. Realmente, Minas é tudo de bom!

    (He, saudades de Machado, meu Deus!! Sou paulista, mas, filha de mineira. Faz um ano que fui aí, mas, parece que faz um século, pois, a saudade é forte de mais!)

    Jussara, beijos e uma ótima semana para você!

    ResponderExcluir
  4. Bia, ao postar, pela manhã, estava pensando justamente que os valores atemporais do texto de Gil Vicente residem no fato de ele enfocar o homem... e de as questões humanas serem sempre as mesmas, passe o tempo que for. Vc percebeu isso! Agradeço a visita e o elogio ao DNA artístico da família... elas são mais artistas que eu... eu fico quase só a burilar palavras... Obrigada pelos bons votos. Sucesso para vc tb em 2012! Abraço!

    ResponderExcluir
  5. Oi, Clara,
    que bom que veio e que gostou a ponto de querer receber as atualizações do blog!
    Fiquei feliz!
    Seja muito bem vinda, a casa é sua!
    Abraço!

    ResponderExcluir
  6. Obrigada, Cristina,
    Seja bem vinda a Machado quando vier... e ao blog, sempre que quiser.
    Abraço!

    ResponderExcluir
  7. Ai Ju... primeiro a delicia do passeio.. fiquei aqui imaginando o chalezinho... ai, ai, ar puro em Sampa é ouro, srrs
    Depois fiquei imaginando a peça, e o melhor a amizade que continua... e o café com bolachinhas.
    eu sou fissurada em café, e Vi faz o melhor que eu já tomei. (O meu é horrível, srrsrs) Ela até pega no meu pé para não tomar muito, senão não durmo á noite,rsrsr

    E para terminar, que fofura a cortininha e o quadrinho ?
    Ah, um dengo só, acho tão legal a gente voltar ao handmade... esses detalhes fazem um lar !!!

    Bjus 1000 e já falei que adoro esse cantinho ??
    Não ? Então, adoro, srsrs


    !!

    ResponderExcluir
  8. Oi, Pepa, vc foi a segunda pessoa a comentar a amizade que continua... bonito isso, né?
    Humm... o café da Vi deve ser como o da minha mãe. Pior é que li em algum lugar que uma xícara de café com açúcar equivale a um docinho... e ando viciada em café! O que fazer com a balança? rs
    Abraço na Vi, outro em vc! Adoro vcs!

    ResponderExcluir
  9. Amei o post, pra variar.
    Uniu várias coisas que eu gosto!
    Literatura, amizade, comida, artes.. tudibão, né?
    Você é mara, mãezinha.. sou sua fã!
    Só pra constar...
    TODO MUNDO ama seus biscoitos, NINGUÉM consegue parar de comer!! rs :)

    ResponderExcluir
  10. Hehe... E agora vc uniu TODO MUNDO, NINGUÉM e BISCOITOS... Bela sacada... Essa é a minha meniiinaa!
    Obrigada, querida! Beijo!

    ResponderExcluir
  11. Olá!
    Vim te deixar um beijo antes que o ano acabe e eu viaje.
    Obrigada pelo seu carinho e companhia.
    Amizades são preciosas e a gente deve prezá-las sempre (tanto aqui no mundo virtual, e mais ainda no mundo real.
    E nos dois , as vezes é muito difícil reuni-las...
    O passeio, depois o café deve ter sido tudo de bom mesmo pelo seu relato.
    Amei a cortininha que sua mãe pintou. Um charme !!!
    O quadrinho bordado pela sua filha também confere um charme todo especial ao cantinho.
    Já que a gente precisa fazer esses afazeres domésticos (chatos), nada como fazer num cantinho charmosos para tornar a lavagem de roupas mais agradável, não é mesmo?rs
    Um bom principio de ano para vc e todos os seus, que todos os seus sonhos planejados se realizem.
    Um beijo

    ResponderExcluir
  12. Fabiana,
    obrigada pela atenção em vir se dspedir de mim. Já lhe desejei boa viagem e um ano cheio de coisas boas, mas reforço tudo isso. Em menos de dois meses me acostumei a ter as suas sugestões e companhia; sentirei sua falta!
    Obrigada pelo comentário tão gentil e carinhoso.
    Abraço!

    ResponderExcluir
  13. Jusssa, Gil Vicente é fantástico. Não conhecia este auto (é um auto, não?). Mas ele era fera. Imagine o que ele faria nos dias de hoje. Iria arrebentar. Falta-nos um Gil Vicente. Urgente.

    ResponderExcluir
  14. Oi, Sidnei,
    é um auto, sim, pois tem conteúdo religioso. O fragmaneto "Todo-o-mundo e Ninguém" ganhou autonomia, mas pertence originalmente ao "Auto da Lusitânia". Os demônios estão a espreitar os humanos a mando de Lúcifer, pois este quer saber como andam seus domínios cá na Terra. Gil é fabuloso. Uma percepção das características humanas... que só ele! Concordo: falta-nos um Gil Vicente! Abraço!

    ResponderExcluir

Obrigada pela visita e pelo comentário :)
Volte sempre!