FONTE
Puseste-me,
Senhor,
Na boca, a
palavra.
Sou tua serva, na
voz
Que se renova na
pena.
Eis-me escrava de
Ti
De Ti, apenas
Que és Senhor
De grandeza
suprema.
Sou serva,
Mulher que se
entrega
Ao teu querer
Porque és homem,
enquanto filho
E não mais matéria
Porque és espírito
e
Como tal
Comandas minha
alma.
Tenho na boca
palavras
Sopradas em tom
veloz
Que meus olhos
depõem na folha Em branco
Espaço não mais
virginal
Que eu quero
preencher
Para mostrar-me
dona de mim.
(Olga Vilela)
Olga Vilela
O poema
“Fonte”, da poetisa Olga Vilela, instala logo nos primeiros versos a atmosfera
do Barroco na qual humano e divino dividem a cena. O eu-lírico, claramente feminino
(“sou tua serva”), dirige-se a um ser
superior, “Senhor/ De grandeza suprema”, que, tanto pelo uso das iniciais
maiúsculas utilizadas para identificá-lo (“Senhor”, “Ti”), quanto pelo mistério
da encarnação (“és homem, enquanto
filho”), identifica-se facilmente como Deus. A Ele a mulher que enuncia os versos voluntariamente entrega-se como
“serva”.
O curioso,
no entanto, é que a servidão a que se propõe o eu-lírico se dá através da “voz/
Que se renova na pena”, o que sugere que este eu, reconhecendo-se poeta,
oferece a Deus seu ofício de escrita e, ao mesmo tempo, é renovado por se
relacionar com Ele.
A servidão
voluntária é reforçada no 5º verso quando o eu-lírico apresenta-se como
“escrava de Ti”, lembrando mesmo a entrega de Maria, virgem, no texto sagrado,
ao ser visitada pelo anjo Gabriel.
A
voluntariedade de tal entrega e a consciência que o eu-lírico demonstra de seu
fazer poético mostram que a atmosfera dos versos pode até ser barroca, mas que
as águas onde eles vão beber nascem em fontes mais próximas do espírito da
atualidade.
De fato essa
mesma mulher que se oferece como “serva”, deixa claro que servirá apenas a
Deus: “De ti, apenas”. E embora esteja se relacionando com o divino, é como uma
mulher se dirige ao homem que se dirige a Deus: “Mulher que se entrega/ Ao teu
querer/ Porque és homem”. Ora, a ousadia de determinar em versos os rumos da própria
vida é característica que marca a figura da mulher depois que pioneiras, como a
carioca Gilka Machado, conquistaram um lugar poético para o dizer feminino.
Gilka Machado
A esse Deus
que se materializa como “filho” e que, consequentemente, é “homem”, é que a
mulher se entrega sem reservas e de modo tão exclusivo. Embora homem,
entretanto, o caráter divino não se perde no Deus que é também “espírito”,
razão pela qual o comando da alma feminina é a Ele entregue: “Comandas minha
alma”.
O resultado
de entrega tão absoluta parece ser, de acordo com os versos finais, o
equilíbrio tão procurado pelo homem barroco. Neste poema, no entanto, é a
mulher que procura se mostrar inteira, “dona” de si. Ter na boca palavras
“sopradas” velozmente pelo Deus a quem se entrega, é garantia da perfeita posse
de si mesma: As “palavras sopradas/ em tom veloz” que a voz poética afirma ter “na
boca”, da boca passam aos olhos que as “depõem” no papel, preenchendo,
eroticamente, o espaço antes virgem da “folha em branco”.
A
metalinguagem que se mescla, nos versos, à afirmação da vontade feminina de ser
“dona” de si, mostra que este poema de Olga se insere no âmbito da moderna
poesia feminina que procura expressar os legítimos anseios da mulher e não mais
aqueles que a tradição glosara como ideais.
Ser
amada por um deus
não foi, afinal, o desejo expresso pela portuguesa Florbela Espanca,
contemporânea de Fernando Pessoa, pioneira também dessa literatura
verdadeiramente feminina?
Florbela Espanca
O amor dum homem? - Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum deus!...
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum deus!...
Não
será esse, afinal, o verdadeiro anseio da alma da mulher? Paulo, apóstolo, ao
escrever aos cristãos de Éfeso, sugere aos maridos quem amem suas esposas “como
Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef. 5: 25). Que mulher,
sendo amada com tal perfeição, recusaria a entrega absoluta que os versos de
Olga sugerem? Entrega capaz de fazer brotar verdadeira fonte de poesia?
Imagens deste post: Google Imagens
Olga Vilela
nasceu em Machado-MG, em 1951. Mestre em Letras pela UninCor, é professora de
Língua Portuguesa e Literatura, membro da Academia Machadense de Letras e autora
do livro Ad-versos.
Para entrar
em contato com ela escreva para oscv@axtelecom.com.br
Comente,
comente, comente... Vou amar!
Bjo&Carinho,
Jussara





Boa tarde, Jussara! Que lindo poema! Obrigada por nos apresentar esta maravilhosa poetisa mineira.
ResponderExcluirÉ bom conhecer nossos escritores...
Beijos e FELIZ DIA DO AMIGO!!!
Isabel Ramalho
Querida Jussara! Lindo este poema! E a sua análise está perfeita. Beijo com carinho, Eunice Maria.
ResponderExcluirhttp://efacilserfelizartesanais.blogspot.com/
efacilserfeliz.artesanais@gmail.com
oi Jussara querida, entendo nada de poemas, mas é muito lindo...
ResponderExcluirVim agradecer teu carinho e recado na postagem, saiba que tens uma amiga aqui torcendo por ti e tua família,
bjo enorme!!!!!!
Olá Jussara, tudo bem?
ResponderExcluirPassei para convidar você a ir no meu cantinho, pois tem um Selinho pra você e aproveitando a minha vinda aqui, não resisti e logo li seus post.
Como sempre todos muito interessantes, sempre apresentando coisas novas para mim e acho que para muitas outras pessoas que desconhecem também. Como sempre brilhando, tudo perfeito e de muito bom conteúdo seus assuntos.
Adoro tudo por aqui.
BJS e Feliz Dia do Amigo!!!!
Oi, Ju,
ResponderExcluirDesculpe o atraso! Como você sabe, minha vida deu uma revirada e o seu blog exige leitura cuidadosa e reflexiva, por isso quis vir aqui com mais tempo, rsrs.
Eis aí, por exemplo, um post que à primeira vista parece falar apenas da ligação que a poetisa quis estabelecer com Deus, mas que a mim diz muito mais, rsrs.
Primeiramente acho que a idéia de servir a Deus é difícil de ser compreendida, e esta é a razão de todos os equívocos que vemos por aí, rsrs.
Segundo o meu entendimento Deus é o melhor de tudo, a excelência das excelências e servir a Deus é abrir o coração e a mente para receber as melhores inspirações para vida.
Deus é amor. Ocorre que há muito perdemos a compreensão do amor, e este para mim é o significado do pecado original: a rebelião contra o permanecer no amor, ou seja, sob os olhos de Deus, como as criancinhas permanecem sob os olhos de um adulto, por não conseguirem cuidar de si mesmas.
Muita gente (a humanidade, de modo geral) odeia a idéia de submeter a própria vida a Deus. Isso resulta da índole voluntariosa da humanidade, que sendo criancinha no entendimento das coisas e do amor, acha que é adulta, age como tal e traz ao mundo o caos que conhecemos. Mas isso também tem a ver com a compreensão errada de Deus, e com os abusos e crimes praticados por aqueles que tomaram para si a tarefa de ensinar aos homens sobre Deus.
Voltando à frase: Deus é amor, não é curioso que a causa dos males do mundo é a falta de amor?
Este post dá causa a muitas reflexões, pois ficaram vários pontos para serem analisados, rsrs.
Beijo e bom fim de semana, querida!
Sabe o que eu mais acho legal no teu blog? A dedicação com que você escreve e prepara as postagens. =}
ResponderExcluirParabéns por isso, Jussara!!! x)
Ah, e sobre meu curso... não tem a ver com ecologia, não. rsrsrsr
Na verdade, eu já cursei 1 semestre de Serviço Social, e passei os últimos 3 anos em Arte e Mídia (um curso que só tem aqui em Campina Grande), aí agora tô pensando em voltar pra SS.
Mas eu gosto de apoiar estas "causas sociais e ambientais". Me sinto bem! x)
E obrigada por assinar!!! heheheh
:****
Lindo, Jussara! E a aula excelente, faz pensar...
ResponderExcluirBjnhos,Ana
Que lindo poema!
ResponderExcluirAdorei!
Como gosto de passar por aqui e conhecer textos e autores...
Adoro seu cantinho!
bjus e ótimo find
Jussara,
ResponderExcluir"Para mostrar-me dona de mim"
há coisa mais linda do que isso? Isso que passa a ser isto: uma mulher mostrar-se dona de si? E mais: em seus escritos lavrar-se inteira e expor seu desejo e ter na boca "palavras sopradas em tom veloz" que seus olhos "depõem" em uma folha em branco?
Bela lembrança a sua de Florbela Espanca, que até nas escrituras mais simples revela suas inquietações divinas: como esquecer-se, por exemplo,de "Quem vestiu de monja a andorinha?"?.
Bela reflexão, Jussara! E "fonte" infindável à Olga Vilela!
Abraços,
Roberto
Oi Ju,que boa sua visita...
ResponderExcluirEntão mulher,nunca tinha saído de Pernambuco,muito mal eu fui ao interior do Estado e Deus me deu esse presente.Foi MARAVILHOSO.
o LUGAR É LINDO MESMO.\O/
AH,FELIZ DIA DO AMIGO.
As palavras de amizade e conforto podem ser curtas e sucintas, mas o seu eco é infindável.bJUUUUUU
Olá Jussara, tudo bem?
ResponderExcluirEstou escrevendo para contar a você que no Blog Pontinhos da Tati está tendo um Sorteio e quem estiver participando pode indicar uma amiga para concorrer junto e no caso a pessoa que ganhar o sorteio estará sorteando junto uma amiga também, e como gosto muito de você e te admiro demais, tomei a liberdade de indicar como amiga você, no caso indiquei seu Blog. Então caso eu ganhe o sorteio, você ganhará também.
Para que você entenda melhor o que eu expliquei vou deixar o nome do Blog da Tati para você visitar e ler direitinho como funciona.
http://pontinhosdatati.blogspot.com
BJS e um ótimo domingo....!!!!
Olá querida!
ResponderExcluirQue bela reflexão!!!
Não entendo nada de poesia, mas amei a aula:)
Um beijo e uma ótima semana
Lindo poema de minha outra mestra, Olga. Só não sabia que ela poetava também. Surpresa prá lá de agradável. A Olga, assim como você e a Zélia, me encantava com seus conhecimentos. Aprendi muito com ela e com vocês! Caso você, dia desses, revê-la, mande-lhe um afetuoso abraço deste sortudo discípulo!!
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