sexta-feira, 20 de julho de 2012

“Fonte”: Águas barrocas e contemporâneas por onde deslizam os anseios da mulher ou Reflexões sobre o poema






FONTE



Puseste-me, Senhor,
Na boca, a palavra.
Sou tua serva, na voz
Que se renova na pena.
Eis-me escrava de Ti
De Ti, apenas
Que és Senhor
De grandeza suprema.
Sou serva,
Mulher que se entrega
Ao teu querer
Porque és homem, enquanto filho
E não mais matéria
Porque és espírito e
Como tal
Comandas minha alma.
Tenho na boca palavras
Sopradas em tom veloz
Que meus olhos depõem na folha Em branco
Espaço não mais virginal
Que eu quero preencher
Para mostrar-me dona de mim.

(Olga Vilela)



Olga Vilela



O poema “Fonte”, da poetisa Olga Vilela, instala logo nos primeiros versos a atmosfera do Barroco na qual humano e divino dividem a cena. O eu-lírico, claramente feminino (“sou tua serva”), dirige-se a um ser superior, “Senhor/ De grandeza suprema”, que, tanto pelo uso das iniciais maiúsculas utilizadas para identificá-lo (“Senhor”, “Ti”), quanto pelo mistério da encarnação (“és homem, enquanto filho”), identifica-se facilmente como Deus. A Ele a mulher que enuncia os versos voluntariamente entrega-se como “serva”.
O curioso, no entanto, é que a servidão a que se propõe o eu-lírico se dá através da “voz/ Que se renova na pena”, o que sugere que este eu, reconhecendo-se poeta, oferece a Deus seu ofício de escrita e, ao mesmo tempo, é renovado por se relacionar com Ele.
A servidão voluntária é reforçada no 5º verso quando o eu-lírico apresenta-se como “escrava de Ti”, lembrando mesmo a entrega de Maria, virgem, no texto sagrado, ao ser visitada pelo anjo Gabriel.
A voluntariedade de tal entrega e a consciência que o eu-lírico demonstra de seu fazer poético mostram que a atmosfera dos versos pode até ser barroca, mas que as águas onde eles vão beber nascem em fontes mais próximas do espírito da atualidade.
De fato essa mesma mulher que se oferece como “serva”, deixa claro que servirá apenas a Deus: “De ti, apenas”. E embora esteja se relacionando com o divino, é como uma mulher se dirige ao homem que se dirige a Deus: “Mulher que se entrega/ Ao teu querer/ Porque és homem. Ora, a ousadia de determinar em versos os rumos da própria vida é característica que marca a figura da mulher depois que pioneiras, como a carioca Gilka Machado, conquistaram um lugar poético para o dizer feminino.



Gilka Machado




A esse Deus que se materializa como “filho” e que, consequentemente, é “homem”, é que a mulher se entrega sem reservas e de modo tão exclusivo. Embora homem, entretanto, o caráter divino não se perde no Deus que é também “espírito”, razão pela qual o comando da alma feminina é a Ele entregue: “Comandas minha alma”.
O resultado de entrega tão absoluta parece ser, de acordo com os versos finais, o equilíbrio tão procurado pelo homem barroco. Neste poema, no entanto, é a mulher que procura se mostrar inteira, “dona” de si. Ter na boca palavras “sopradas” velozmente pelo Deus a quem se entrega, é garantia da perfeita posse de si mesma: As “palavras sopradas/ em tom veloz” que a voz poética afirma ter “na boca”, da boca passam aos olhos que as “depõem” no papel, preenchendo, eroticamente, o espaço antes virgem da “folha em branco”.







A metalinguagem que se mescla, nos versos, à afirmação da vontade feminina de ser “dona” de si, mostra que este poema de Olga se insere no âmbito da moderna poesia feminina que procura expressar os legítimos anseios da mulher e não mais aqueles que a tradição glosara como ideais.
Ser amada por um deus não foi, afinal, o desejo expresso pela portuguesa Florbela Espanca, contemporânea de Fernando Pessoa, pioneira também dessa literatura verdadeiramente feminina?



Florbela Espanca

O amor dum homem? - Terra tão pisada!
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum deus!...




Não será esse, afinal, o verdadeiro anseio da alma da mulher? Paulo, apóstolo, ao escrever aos cristãos de Éfeso, sugere aos maridos quem amem suas esposas “como Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Ef. 5: 25). Que mulher, sendo amada com tal perfeição, recusaria a entrega absoluta que os versos de Olga sugerem? Entrega capaz de fazer brotar verdadeira fonte de poesia?







Imagens deste post: Google Imagens





Olga Vilela nasceu em Machado-MG, em 1951. Mestre em Letras pela UninCor, é professora de Língua Portuguesa e Literatura, membro da Academia Machadense de Letras e autora do livro Ad-versos.
Para entrar em contato com ela escreva para oscv@axtelecom.com.br



Comente, comente, comente... Vou amar!


Bjo&Carinho,


Jussara









13 comentários:

  1. Boa tarde, Jussara! Que lindo poema! Obrigada por nos apresentar esta maravilhosa poetisa mineira.
    É bom conhecer nossos escritores...
    Beijos e FELIZ DIA DO AMIGO!!!


    Isabel Ramalho

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  2. Querida Jussara! Lindo este poema! E a sua análise está perfeita. Beijo com carinho, Eunice Maria.

    http://efacilserfelizartesanais.blogspot.com/
    efacilserfeliz.artesanais@gmail.com

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  3. oi Jussara querida, entendo nada de poemas, mas é muito lindo...
    Vim agradecer teu carinho e recado na postagem, saiba que tens uma amiga aqui torcendo por ti e tua família,

    bjo enorme!!!!!!

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  4. Olá Jussara, tudo bem?
    Passei para convidar você a ir no meu cantinho, pois tem um Selinho pra você e aproveitando a minha vinda aqui, não resisti e logo li seus post.
    Como sempre todos muito interessantes, sempre apresentando coisas novas para mim e acho que para muitas outras pessoas que desconhecem também. Como sempre brilhando, tudo perfeito e de muito bom conteúdo seus assuntos.
    Adoro tudo por aqui.

    BJS e Feliz Dia do Amigo!!!!

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  5. Oi, Ju,

    Desculpe o atraso! Como você sabe, minha vida deu uma revirada e o seu blog exige leitura cuidadosa e reflexiva, por isso quis vir aqui com mais tempo, rsrs.
    Eis aí, por exemplo, um post que à primeira vista parece falar apenas da ligação que a poetisa quis estabelecer com Deus, mas que a mim diz muito mais, rsrs.
    Primeiramente acho que a idéia de servir a Deus é difícil de ser compreendida, e esta é a razão de todos os equívocos que vemos por aí, rsrs.
    Segundo o meu entendimento Deus é o melhor de tudo, a excelência das excelências e servir a Deus é abrir o coração e a mente para receber as melhores inspirações para vida.
    Deus é amor. Ocorre que há muito perdemos a compreensão do amor, e este para mim é o significado do pecado original: a rebelião contra o permanecer no amor, ou seja, sob os olhos de Deus, como as criancinhas permanecem sob os olhos de um adulto, por não conseguirem cuidar de si mesmas.
    Muita gente (a humanidade, de modo geral) odeia a idéia de submeter a própria vida a Deus. Isso resulta da índole voluntariosa da humanidade, que sendo criancinha no entendimento das coisas e do amor, acha que é adulta, age como tal e traz ao mundo o caos que conhecemos. Mas isso também tem a ver com a compreensão errada de Deus, e com os abusos e crimes praticados por aqueles que tomaram para si a tarefa de ensinar aos homens sobre Deus.
    Voltando à frase: Deus é amor, não é curioso que a causa dos males do mundo é a falta de amor?

    Este post dá causa a muitas reflexões, pois ficaram vários pontos para serem analisados, rsrs.


    Beijo e bom fim de semana, querida!

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  6. Sabe o que eu mais acho legal no teu blog? A dedicação com que você escreve e prepara as postagens. =}
    Parabéns por isso, Jussara!!! x)

    Ah, e sobre meu curso... não tem a ver com ecologia, não. rsrsrsr
    Na verdade, eu já cursei 1 semestre de Serviço Social, e passei os últimos 3 anos em Arte e Mídia (um curso que só tem aqui em Campina Grande), aí agora tô pensando em voltar pra SS.
    Mas eu gosto de apoiar estas "causas sociais e ambientais". Me sinto bem! x)
    E obrigada por assinar!!! heheheh

    :****

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  7. Lindo, Jussara! E a aula excelente, faz pensar...
    Bjnhos,Ana

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  8. Que lindo poema!
    Adorei!
    Como gosto de passar por aqui e conhecer textos e autores...
    Adoro seu cantinho!
    bjus e ótimo find

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  9. Jussara,

    "Para mostrar-me dona de mim"

    há coisa mais linda do que isso? Isso que passa a ser isto: uma mulher mostrar-se dona de si? E mais: em seus escritos lavrar-se inteira e expor seu desejo e ter na boca "palavras sopradas em tom veloz" que seus olhos "depõem" em uma folha em branco?

    Bela lembrança a sua de Florbela Espanca, que até nas escrituras mais simples revela suas inquietações divinas: como esquecer-se, por exemplo,de "Quem vestiu de monja a andorinha?"?.

    Bela reflexão, Jussara! E "fonte" infindável à Olga Vilela!

    Abraços,

    Roberto

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  10. Oi Ju,que boa sua visita...
    Então mulher,nunca tinha saído de Pernambuco,muito mal eu fui ao interior do Estado e Deus me deu esse presente.Foi MARAVILHOSO.
    o LUGAR É LINDO MESMO.\O/
    AH,FELIZ DIA DO AMIGO.

    As palavras de amizade e conforto podem ser curtas e sucintas, mas o seu eco é infindável.bJUUUUUU

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  11. Olá Jussara, tudo bem?

    Estou escrevendo para contar a você que no Blog Pontinhos da Tati está tendo um Sorteio e quem estiver participando pode indicar uma amiga para concorrer junto e no caso a pessoa que ganhar o sorteio estará sorteando junto uma amiga também, e como gosto muito de você e te admiro demais, tomei a liberdade de indicar como amiga você, no caso indiquei seu Blog. Então caso eu ganhe o sorteio, você ganhará também.
    Para que você entenda melhor o que eu expliquei vou deixar o nome do Blog da Tati para você visitar e ler direitinho como funciona.

    http://pontinhosdatati.blogspot.com

    BJS e um ótimo domingo....!!!!

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  12. Olá querida!
    Que bela reflexão!!!
    Não entendo nada de poesia, mas amei a aula:)

    Um beijo e uma ótima semana

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  13. Lindo poema de minha outra mestra, Olga. Só não sabia que ela poetava também. Surpresa prá lá de agradável. A Olga, assim como você e a Zélia, me encantava com seus conhecimentos. Aprendi muito com ela e com vocês! Caso você, dia desses, revê-la, mande-lhe um afetuoso abraço deste sortudo discípulo!!

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