terça-feira, 29 de maio de 2012

Mania de livros e manias de escritores


Costumo registrar os meus livros como se faz numa biblioteca. Que eu sou perfeccionista e tenho mania de arrumação já confessei aqui, mas não se trata disso. É que como não paro de comprar livros, a catalogação facilita encontra-los nas estantes, coisa que seria extremamente trabalhosa caso não utilizasse esse método. Pois bem: há sempre uma pequena/grande pilha de livros esperando para receber carimbo, número de tombo, de chamada, etiqueta... Quando finalmente decido que chegou o momento de me dedicar ao registro, são tantos os livros para colocar nas prateleiras que a biblioteca – literalmente – se move. Livros registrados como “Filosofia” (com o número 100) precisam de mais espaço e “empurram” os “religiosos” (de número 200) para a prateleira de cima. Esses, por sua vez, fazem o mesmo com os livros seguintes e a Jussara segue limpando livros e prateleiras até que mais uma pequena/grande pilha de livros se forme, depois de algumas compras. É trabalhoso, mas é um trabalho delicioso. Eu amo livros! Pelo conteúdo deles, sim, mas como objetos também. Gosto de possuí-los, de sentir seu cheiro de papel novo, acabado de sair do prelo, ou seu cheiro de velhice, de tempo decorrido desde a publicação, do manuseio por mim e sabe Deus por quem mais. Gosto de anotar nas margens o que me chama a atenção; marco com lápis de cor as partes que considero poéticas e/ou filosóficas, com grafite ou marca-texto o que merece ser refletido, pensado, ruminado. Restauro aqueles que ameaçam perder as páginas, crio capas para os que as perderam... O dia se escoa muito rápido quando estou com os livros e embora eu continue a habitar este planeta, sinto-me como se tivesse sido dele arrebatada momentaneamente.

Desde ontem assumi a tarefa de fazer essa organização que há alguns meses – por motivos vários – vem sendo adiada. Coerente com esse momento resolvi compartilhar aqui algumas curiosidades sobre os escritores sobre cujos livros estou a me debruçar lá em cima (no meu sótão, onde fica minha biblioteca).

A maior parte dos comentários  abaixo eu já conhecia antes de recebê-los de uma amiga, por e-mail. Reescrevi a maioria, muito embora o trabalho de selecioná-los não tenha sido meu e eu não tenha nenhuma espécie de informação que me permita atribuir créditos por isso.

Ei-los:


O escritor WOLFGANG VON GOETHE escrevia em pé. Ele mantinha em sua casa uma escrivaninha alta para esta finalidade.

Goethe



O escritor PEDRO NAVA parafusava os móveis de sua casa a fim que  ninguém os tirasse do lugar.

Pedro Nava


 
GILBERTO FREYRE nunca manuseou aparelhos eletrônicos, nem sabia ligar um televisor. Todas as suas obras foram escritas a bico-de-pena, como o mais extenso de seus livros, Ordem e Progresso, de 703 páginas.

Gilberto Freyre 



Como Superintendente de Obras Públicas de São Paulo, EUCLIDES DA CUNHA foi o engenheiro responsável pela construção de uma ponte em São José do Rio Pardo-SP. A obra demorou três anos para ficar pronta, mas ruiu poucos meses depois de inaugurada. Euclides não se deu por  vencido e a reconstruiu, mas, por via das dúvidas, abandonou a carreira de engenheiro.


Euclides da Cunha




MACHADO DE ASSIS ultrapassou barreiras sociais e físicas. Além da infância marcada pela pobreza, ainda era mulato – numa época anterior à abolição da escravatura – míope, gago e epilético. Enquanto escrevia Memórias Póstumas de Brás Cubas, foi acometido por uma de suas piores crises intestinais, com complicações para sua frágil visão. Os médicos recomendaram três meses de descanso em  Petrópolis. Sem poder ler nem redigir, ditou grande parte do romance para a esposa, Carolina.


Machado de Assis




 GRACILIANO RAMOS era ateu, mas tinha uma Bíblia na cabeceira para apreciar os ensinamentos e os elementos de retórica. Por insistência da sogra, casou na igreja com Maria Augusta, católica fervorosa, mas exigiu que a cerimônia ficasse restrita aos pais do casal. No segundo casamento, com Heloísa, evitou transtornos: casou logo no religioso.

Graciliano Ramos


  
ALUÍSIO DE AZEVEDO tinha o hábito de, antes de escrever seus romances, desenhar e pintar sobre papelão as personagens principais,  mantendo-as em sua mesa de trabalho enquanto escrevia.
Aluísio Azevedo






JOSÉ LINS DO REGO era fanático por futebol. Foi diretor do Flamengo e chegou a chefiar a delegação brasileira no Campeonato Sul-Americano, em 1953. Em 1955, ao ser nomeado para a Academia Brasileira de Letras, ao invés de elogiar o antecessor, como de costume, disse que Ataulfo de Paiva não poderia ter ocupado a cadeira por lhe faltar vocação.



José Lins do Rego


 
Aos dezessete anos, CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo-RJ, depois de um desentendimento com o professor de Português. Imitava com perfeição a assinatura dos outros a ponto de falsificar a de seu chefe durante anos a fim de lhe poupar trabalho. Ninguém notou. Tinha mania de picotar papel e tecidos. “Se não fizer isso”, dizia, “saio matando gente pela rua”.

Carlos Drummond de Andrade



 Numa das viagens a Portugal, CECÍLIA MEIRELES marcou um encontro com o poeta FERNANDO PESSOA no Café “A Brasileira”, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até às duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel onde a esperava um livro autografado pelo autor lusitano. Junto com o exemplar, a explicação para o “furo”: Fernando  Pessoa tinha lido seu horóscopo pela manhã e concluído que não era um bom dia para o encontro.


Cecília Meireles



Fernando Pessoa
  



ÉRICO VERÍSSIMO era quase tão taciturno quanto o filho LUÍS FERNANDO, também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico fez uma pergunta que o filho respondeu quatro horas depois, quando chegavam à estação final.



Érico Veríssimo





Luís Fernando Veríssimo




  
CLARICE LISPECTOR era solitária e tinha crises de insônia. Ligava para  os amigos e dizia coisas perturbadoras. Imprevisível, era comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser servida.



Clarice Lispector



  

 MONTEIRO LOBATO adorava café com farinha de milho, rapadura e içá torrado (a bolinha traseira da formiga tanajura), além de Biotônico Fontoura. “Para ele, era licor”, diverte-se Joyce, a neta do escritor. Também tinha mania de consertar tudo. “Mas para arrumar uma coisa,  sempre quebrava outra”.



Monteiro Lobato


MANUEL BANDEIRA sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos dez anos, numa viagem de trem, quando teria puxado conversa com o escritor: “O senhor gosta de  Camões?” E para mostrar que ele, mesmo aos dez anos, gostava, recitara uma estrofe de Os Lusíadas da qual o mestre não se lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a  história para impressionar os amigos.  

Manuel Bandeira


GUIMARÃES ROSA, médico recém-formado, trabalhou em lugarejos que  não constavam no mapa. Cavalgava a noite inteira para atender a pacientes  que viviam em longínquas fazendas. As consultas eram pagas com bolo, pudim, galinha e ovos. Sentia-se culpado quando os pacientes morriam. Acabou abandonando a profissão. “Não tinha vocação. Quase desmaiava ao ver sangue”, conta Agnes, a filha mais nova.

Guimarães Rosa





 MÁRIO DE ANDRADE provocava ciúmes no antropólogo Lévi-Strauss porque era muito amigo da mulher dele, Dina. Só depois da morte de Mário o  francês descobriu que o escritor era homossexual.

 
Mário de Andrade



VLADIMIR MAIAKÓVSKI tinha o que atualmente chamamos de Transtorno  Obsessivo-Compulsivo (TOC). O poeta russo tinha mania de limpeza e costumava lavar as mãos diversas vezes ao dia numa espécie de ritual  repetitivo e obsessivo.
  
Vladimir Maiskovski


A preocupação excessiva com doenças fazia com que o escritor de origem  tcheca, FRANZ KAFKA, usasse roupas leves e só dormisse de janelas abertas, para que o ar circulasse, mesmo no rigoroso inverno de Praga.

Franz Kafka



 O escritor norte-americano ERNEST HEMINGWAY passou boa parte de sua  vida tratando de problemas de depressão. Apesar de contar com ajuda especializada, o escritor foi vencido pela tristeza e amargura  crônicas. Hemingway deu fim à própria vida com um tiro na cabeça.
Ernest Hemingway


 
 No início dos anos 50, VINICIUS DE MORAES morava num minúsculo apartamento em Copacabana, sem geladeira. Para aguentar o calor, chupava uma bala de hortelã e em seguida  bebia um copo de água para ter sensação refrescante na boca.


Vinícius de Moraes




Para autorizar a adaptação de Gabriela, cravo e canela para a TV, JORGE AMADO exigiu que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. “Por quê?”, quiseram saber os jornalistas. Jorge Amado respondeu: “Nós somos amantes”. Ficou todo mundo de boca aberta. Quando Sônia apareceu, ele se levantou e, muito formal disse: “Muito prazer, encantado”. Era piada; os dois nem se conheciam até então.


Jorge Amado



Como esta blogueira, o poeta PABLO NERUDA tinha mania de coleções. Colecionava conchas, navios em miniatura, garrafas, bebidas, máscaras, cachimbos, insetos, quase tudo que lhe passava pela cabeça.


Pablo Neruda

Imagens utilizadas neste post: Google Imagens


Agora me diga: não tem razão o ditado que diz que  “de poeta, médico e louco, todos temos um pouco”?



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Beijo&Carinho,


Jussara


terça-feira, 22 de maio de 2012

Entre livros e aventais


Quando eu era menina costumavam cantar uma música que falava das lembranças que o adulto – cuja voz se fazia ouvir na canção – tinha de sua meninice em companhia da mãe:
Eis um trechinho:

Mamãe, mamãe, mamãe
Eu te lembro o chinelo na mão
O avental todo sujo de ovo
Se eu pudesse
Eu queria, outra vez, mamãe
Começar tudo, tudo de novo...


Trata-se de uma composição muito bonita – a letra é um verdadeiro poema – e você pode lê-la/ouvi-la na íntegra se clicar aqui.
Acho que eu mesma nunca soube mais que esse trechinho que transcrevi e por ocasião do Dia das Mães, enquanto meus filhos eram pequenos e estavam envolvidos com preparativos para festejar a data, costumava cantá-lo. Um dia, surpreendendo-me, minha filha disse:

– “No seu caso a letra teria que ser mudada” – e cantou –  “Mamãe, mamãe, mamãe/ Eu te lembro com um livro na mão/ O avental todo limpo e pendurado...”.
Eu ri muito, pois era verdade. Frequentava pouquíssimo a cozinha e estava sempre às voltas com o preparo de aulas e intermináveis livros – uma média de 80 por ano.

O tempo fez sua lição de casa: correu ligeiro e alterou um punhado de coisas. Embora continue amando os livros, já não leio tanto. Conquanto não ame tanto assim a cozinha, passo lá mais tempo do que jamais sonhei. Não tenho aventais sujos de ovo porque sou exigente e perfeccionista demais para isso, mas tenho alguns que alegram meu coração só por existirem, tão lindos são:


A pressa é mesmo inimiga da perfeição.
Eu deveria ter passado a ferro o avental antes de fotografá-lo...



Pintura, fuxico e botões. Feito pela minha mãe, este avental ganhou um concurso beneficente na Igreja que frequentamos. As artesãs doavam os aventais e as interessadas compravam a fim de gerar renda para doação de cestas básicas. Imagina se eu deixaria de comprar o avental feito pela minha mãe, ainda por cima campeão!


Bordado meu, em ponto cruz, montagem da minha mãe



Bordado da minha filha, montagem da minha mãe



Não são lindos?



Ao final desta semana estarei de avental, na cozinha, preparando enroladinhos de salsinha para o lanche da tarde. Minha filha estará em casa e será quase véspera de seu aniversário.

Por falar em mães e filhos, preciso contar que duas de minhas coleções tiveram um pequeno acréscimo no último Dia das Mães. Ângela me presenteou com uma caneca linda, da Imaginarium , personalizada, pois vem com uma caneta própria para escrever na cerâmica e depois é levada ao forno para fixar a mensagem, o que transforma a caneca numa cartinha de amor para se levar para cama ou sofá com um chazinho doce e quente nestes dias frios.





Linda! Obrigada, querida, eu amei!



Gabriel trouxe de São Tomé das Letras uma coruja redonda, gorda e alegre que amei imediatamente. Embora ela pretenda ser um cofre, não tem espaço para retirar as moedas, o que exigiria o sacrifício da Girassol quando estivesse rica (Girassol foi o nome que dei à coruja em razão de seus olhos lembrarem essas flores), o que eu jamais faria.





Linda, charmosa, encanta qualquer canto em que é colocada. Obrigada, filho, eu amei!



Depois das fotos, cada presentinho tomará seu lugar na respectiva coleção e eu serei uma colecionadora um tantinho mais abastada... uma mãe com certeza mais coruja e sempre feliz!




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Beijo&Carinho,

Jussara

sábado, 19 de maio de 2012

Quase sem palavras



As palavras escritas me seduzem pelas infinitas possibilidades com que se desdobram e se moldam de acordo com a intenção da mensagem que quero transmitir. Por isso sou uma inveterada gulosa de palavras num mundo em que os apelos visuais são cada dia mais comuns, insistentes ou  impactantes.
Hoje, entretanto, abro mão da gulodice a fim de apresentar uma série de fotografias que recebi em forma de slides sob o título "Momentos que dispensam as palavras". Não havia referência aos autores das imagens, nem a quem as reuniu com o objetivo de que nós, expectadores de um momento congelado no tempo, pudessemos fazer nossa "leitura" da cena criando cada qual a sua versão do instante eternizado.
Ei-las:








































Lindo final de semana. Que palavras e imagens estejam em harmonia!




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Beijo&Carinho,


Jussara








terça-feira, 15 de maio de 2012

Nem só de palavras vivem os poetas



Além de aproximar língua escrita e língua falada, o Modernismo propôs o chamado poema-pílula – poemas pequenininhos, devido à correria da vida moderna, mas que garantissem, no breve instante de sua leitura, a “dose” necessária de poesia para enfrentar a vida. Mais tarde, nos anos 50, foi a vez de o Concretismo experimentar poemas com ainda menos palavras, brincando com essas no branco da página de modo a criar através de sua disposição uma imagem “concreta” da ideia que o poema se propunha transmitir.

Tal experimentalismo não se esgotou nessa experiência pós-moderna, como fazem supor os livros didáticos. Ao contrário, prosseguiu de um modo tímido, mas contínuo, a ponto de chegar aos nossos dias e se enriquecer com possibilidades sequer imaginadas antes da informática.
Falo do movimento do poema visual, visível no Brasil a partir dos anos 70 através de exposições e publicações alternativas. Tal movimento se caracteriza por valorizar a leitura da imagem; palavras até podem compor o poema visual, mas de forma a se fundir com a(s) imagem(s) escolhidas formando um todo harmonioso “capaz de permitir ao vleitor” – aquele que lê e vê ou só vê",  explica Hugo Pontes – “uma infinidade de leituras, de acordo com o nível do seu conhecimento, experiência, cultura e escolaridade”. Quanto à temática, os poemas visuais seguem, em certo sentido, a mesma dos poemas feitos com palavras: o homem e seu estar no mundo. O posicionamento do artista, entretanto, é quase sempre crítico.


Hugo Pontes, poeta visual

Apesar de sobreviver basicamente de publicações alternativas, o poema visual está espalhado pelo mundo. No Brasil seu núcleo mais vigoroso e consistente se encontra em Minas, representado pelos poetas Joaquim Branco, Márcio Almeida, Marcelo Dolabela, Sebastião Nunes e Hugo Pontes.

A página ComunicARTE, do Jornal da Cidade de Poços de Caldas-MG, editada por Hugo, é um dos mais importantes veículos para divulgação do poema visual no Brasil. São desse poeta, também, os dois poemas visuais abaixo, lembrados mais que na hora de conferir um pouco mais de visualidade a este artigo:


 


Note que o poema “Nós” descontrói a imagem romântica que o imaginário comum tem sobre um poema com esse título. Ao invés de uma ilustração de um casal de mãos entrelaçadas e de longos versos sobre o sentimento por eles experimentado, o poema visual de Hugo Pontes entrelaça de gravata e de forca, sugerindo, ao invés do pensamento romântico, as pressões e convenções sociais que cerceiam a liberdade. O termo “nós”, no poema de Hugo, tanto pode ser lido como os nós citados (da forca, da gravata), quanto como um pronome: “nós” dois. Nesse último sentido, o poema se converte numa crítica direta ao casamento que, atrás do aparato festivo (gravata) esconderia seu verdadeiro sentido (forca).





No poema Barca Bela, a leitura linear (linha por linha, como normalmente se lê) possibilitará apenas a repetição da frase “A BARCA BELA”. No entanto, se o vleitor optar por ler num primeiro momento apenas o que está grafado em preto e depois o que está grafado em branco, ou vice-versa, encontrará a repetição da mesma frase, mas seus olhos se deslocarão pelo poema visual como se na barca estivesse, pois a frase é desmembrada de forma a compor o movimento das ondas. O que me encanta é que o poeta, usando sempre as mesmas palavras, consegue imprimir movimento ao texto, coisa que Almeida Garret, poeta do Romantismo português, precisou criar através de métrica e rima:



Pescador da barca bela
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Oh pescador?


(Fragmento)


Bem declamados os versos do poeta português, nos quais o poema de Hugo certamente se inspira, sugerem também o ir e vir das ondas, percebe? Também aqui há a desconstrução de um universo – o do romântico poeta que adverte o pescador sobre o perigo das sereias – e a criação de um novo no qual a própria barca – seu movimento e beleza – é todo o sentido do texto.


O que achou? Quer saber mais? Acesse aqui a página do Hugo.



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Beijo&Carinho,

 Jussara